Glyphosate aplicado no início do estádio reprodutivo inviabiliza a produção de sementes de buva resistente

Cristiano Piasecki1,2, Alcimar Mazon1, Andres Monge1, Jerfesson Cavalcante1, Dirceu Agostinetto1, e Leandro Vargas3

1 Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Programa de Pós-Graduação em Fitossanidade (PPGFs), Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil.

2 ATSI Brasil Excelência em Pesquisa e Consultoria, Passo Fundo, Rio Grande do Sul, Brasil.

3 Embrapa Trigo, Passo Fundo, Rio Grande do Sul, Brasil

A buva resistente ao glyphosate é uma das mais importantes plantas daninhas no mundo. No Brasil, esta planta daninha interfere e reduz a produtividade de diversas plantas cultivadas, sendo a soja a principal afetada. De acordo com a EMBRAPA, a inteferência de 3 e 6 plantas de buva por metro quadrado reduz a produtividade da soja de 4 e 12 sacas por hectare, respectivamente.

Ao longo de décadas, pesquisadores têm estudado esta “implacável” planta daninha buscando encontrar soluções para o manejo. Entretanto, a presença permanente da buva nas lavouras indica que ela tem se adaptado e superado os esforços empregados. O sucesso da buva em ocupar e se desenvolver em diversos ambientes deve-se ao fato de uma única planta produzir cerca de 100 mil sementes que se dispersam para longas distâncias, e de estas plantas tolerarem adversidades do ambiente (por exemplo, falta de água), dentre outras. Estas características somadas a resistência ao glyphosate fazem da buva uma planta daninha presente em diversos ambientes e difícil de ser manejada.

Na região Sul do Brasil é muito comum plantas de buva florescerem e dispersarem sementes em lavouras, beiradas de cercas e estradas (rodovias e ferrovias) (Figura 1), dentre outros locais inusitados como tronco de árvore (Figura 2). Grande parte das sementes produzidas germinam assim que as condições ambientais forem favoráveis, enquanto que cerca de 0.8% ficam dormentes e viáveis no banco de sementes do solo por cerca de dois anos (Piasecki et al., 2019).

Estratégias de manejo para impedir ou reduzir a produção de sementes de buva são excelentes alternativas para a redução da infestação a médio e longo prazo. Porém, poucas informações são conhecidas a respeito no caso particular da buva. No presente estudo, a questão a ser respondida foi: “a aplicação do glyphosate no estádio vegetativo ou reprodutivo da buva afeta a produção (quantidade) e qualidade fisiológica das sementes (qualidade)?”.

Figura 1. Plantas de buva se desenvolvendo em beiradas de lavouras e estradas.
Figura 2. Plantas de buva se desenvolvendo em tronco de árvore.

Para responder à questão acima, um estudo em casa de vegetação foi conduzido na Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Plantas de buva no estádio vegetativo e reprodutivo foram tratadas com glyphosate (4 L ha-1 de Roundup Original) (Figura 3). A produção de sementes das plantas tratadas em cada estádio foi mensurada e comparada a plantas do mesmo respectivo estádio que não receberam aplicação de glyphosate (testemunha). Além disso, o número de sementes produzidas por planta foi estimado, bem como, a qualidade fisiológica avaliada. 

Figura 3. Estádios de desenvolvimento da buva no dia da aplicação do glyphosate (4 L/ha – Roundup). A) plantas no início do estádio reprodutivo (detalhe da formação das estruturas reprodutivas); B) plantas no estádio vegetativo.

Os resultados do estudo indicam que em média cada planta de buva não tratada com glyphosate produziu 100 mil sementes. Por outro lado, as buvas tratadas no estádio vegetativo produziram 68% menos sementes em relação as testemunhas; enquanto que as tratadas no início do estádio reprodutivo não produziram sementes (Figura 4). Os sintomas da ação do glyphosate iniciaram cerca de cinco dias após a aplicação evoluindo até a completa necrose das estruturas reprodutivas aos 28 dias (Figura 5).

Embora as plantas que não receberam aplicação de glyphosate produziram centenas de milhares de sementes, a viabilidade média foi 38%. Mesmo com baixa viabilidade, os resultados do estudo indicam que cada planta de buva em condição natural é capaz de originar em torno de 38 mil novas plantas, o que é um número elevado. Apesar de a aplicação do glyphosate no estádio vegetativo da buva não ter influenciado a qualidade fisiológica das sementes, esta resultou em menor quantidade. Assim sendo, a aplicação do glyphosate no estádio vegetativo e início do reprodutivo reduzem a produção de sementes de buva. Entretanto, a aplicação no início do estádio reprodutivo foi mais eficiente pois a buva não produziu sementes.  


Figura 4. Volume de sementes produzido por planta de buva de acordo com cada tratamento. A e C) sementes produzidas por plantas não tratadas com glyphosate; B e D) volume de sementes produzido por cada planta de buva após terem sido tratadas com glyphosate no estádio vegetativo (B) e reprodutivo (D), respectivamente.

De forma geral, a aplicação do glyphosate nos estádios vegetativo e início do reprodutivo da buva é uma estratégia eficiente para reduzir a produção de sementes. Recomenda-se o emprego desse método de aplicação para áreas como beiradas de estradas, cercas, dentre outros. Contudo, vale alertar que antes de adotar esta prática, as boas práticas de manejo e aplicação de herbicidas devem ser seguidas de acordo com as recomendações em bula e a legislação vigente. Recomendamos a leitura da versão original do artigo para se ter acesso a todos os detalhes.

Figura 5. Sintomas da ação do glyphosate aplicado no início do estádio reprodutivo da buva. A e B) epinastia, anelamento na base da estrutura reprodutiva com evolução para necrose. C) detalhe da necrose nas estruturas reprodutivas aos 15 dias após aplicação. D) completa necrose das estruturas reprodutivas aos 28 dias após aplicação

Referências

Texto original (clique para acessar)

Piasecki, C.; Mazon, A. S.; Agostinetto, D.; Vargas, L. Glyphosate resistance affect the physiological quality of Conyza bonariensis seeds. Planta Daninha, 37, 2019. doi: 10.1590/S0100-83582019370100145.